A educação sempre se preocupou com a avaliação?

A avaliação surge como teoria ou pesquisa nos anos 1950-1960, como uma preocupação, principalmente dos americanos, com a qualidade da educação. Mas a teoria da avaliação surge voltada à avaliação de currículo das instituições. Daí, até hoje, no Brasil, sofremos a influência dos teóricos mais divulgados, como Ralph Tyler.

A visão dele foi comportamentalista: uma análise de objetivos alcançados e sobre o processo educacional que leva ao alcance de tais objetivos. Herdamos essa visão sistêmica, positivista e comportamentalista, do que pretendemos que um aluno ou a escola alcancem, das análises intervenientes no processo educacional.

Como surgiu o conceito de avaliação mediadora?

Fiz minha pesquisa de Mestrado em Avaliação Educacional na UFRJ na década de 1980. Nessa ocasião, dois teóricos despertaram minha atenção: Lee Cronbach e James W. Popham. Cronbach defendia que o avaliador influenciava na transformação do objeto avaliado. Até então, o avaliador era considerado o observador, sem influenciar no processo. Popham deu um passo a mais, dizendo que “cabe ao pesquisador descobrir o mundo, mas cabe ao avaliador torná-lo melhor“.

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Essas duas posições revolucionárias foram as primeiras ideias que contribuíram para que eu passasse a dar relevo ao papel do professor como mediador: alguém que influencia e promove melhorias na aprendizagem.

A influência de Paulo Freire também foi muito forte. Um livro que fez diferença na minha vida foi Medo e ousadia, em que ele discute com Ira Shor sobre questões de subjetividade na avaliação: que a avaliação não é precisa, não é objetiva, mas altamente subjetiva, que não se vê o sujeito avaliado com neutralidade. Toda avaliação envolve sempre um juízo de valor da pessoa que avalia, entram sempre em jogo sentimentos, conhecimentos e vivências pessoais ao se julgar algo como bonito, certo, errado etc.

A partir dos estudos desses e de outros teóricos surgiu a denominação “avaliação mediadora”. Ela envolve essencialmente a questão do caráter da subjetividade na avaliação, e do quanto o avaliador influencia o objeto avaliado.

E sobre a avaliação hoje, na prática?

Houve uma mudança significativa em termos do pensamento dos professores em relação a essa prática, embora ainda se enfrente muita resistência em mudar. Não há uma formação consistente na concepção de avaliação formativa/processual. Os professores conscientes criam dispositivos próprios para adequar seus processos inovadores a um sistema tradicional e, assim, não reprovar o aluno.

O professor consciente busca saídas para se encaixar aos regimentos escolares que contradizem seus princípios. Mas o mesmo não acontece com o professor instrucionista, para o qual “dar aula” é a sua função. Ao atribuir uma nota, se questionado, o professor precisa explicitar o seu juízo de valor a respeito da tarefa analisada.

Nesse momento, entram em jogo critérios de natureza qualitativa, que são complexos e multidimensionais. Por isso, chego a dizer que “o pulo do gato” em avaliação é nos darmos conta da importância da análise qualitativa de testes e tarefas.

E quanto à clareza de critérios?

Não há critérios que deem conta da qualidade de um objeto avaliado, porque tarefas complexas suscitam critérios de qualidade imprevisíveis. A capacidade inventiva, criativa, do aluno não pode ser prevista sob a forma de critérios estabelecidos a priori quando uma tarefa proposta é verdadeiramente inteligente.

O aluno é um ser imprevisível, não há limites para a sua inventividade. A questão é que se costuma confundir critérios de qualidade com condições para realização de uma tarefa, como prazo de entrega, número de páginas, sugestões de autores para consulta etc.

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Na minha visão, objetivos significativos são amplos e complexos, dizem respeito ao desenvolvimento moral e intelectual dos alunos, e não se restringem a objetivos conteudísticos referentes a determinadas áreas do conhecimento (como saber o quê, ou como, ou para quê). Um objetivo significativo é “que o aluno tenha confiança para expressar suas próprias ideias com convicção e do seu próprio jeito”.

Esse objetivo é transversal a vários conteúdos e situações de aprendizagem e deve ser perseguido ao longo de toda a escolaridade. Mas, para avançarmos nesse sentido, dependemos da formação do professor, da sua vontade de conhecer o aluno, da sua curiosidade pelo pensamento do aluno, de uma postura de descentração (pensar como o aluno pensa e desafiá-lo a ir adiante). Isso é mediação.