Educação e Cidadania: Direitos humanos e pena de morte

O que eu acho interessante é que, na verdade, quem levanta isso na voz mais alta é o presidente que, quando se elegeu, se vangloriava de ter sido o que mais executou pessoas, quando governador no Texas. Dizia que ia acabar com a criminalidade nos Estados Unidos com a pena de morte.

A pena de morte existe em alguns países. Ela é uma coisa que às vezes é imposta, mas às vezes há uma aquiescência da população. Até quanto eu sei, na China, você percebe alguma coisa absolutamente normal e o crime que é punido pela pena de morte é considerado legítimo. Quais são esses crimes? Assassinato, quando alguém mata sem uma justa causa; os casos graves de corrupção de ministros, governadores, prefeitos, diretores de empresas, que com frequência recebem pena de morte por terem desviado milhões em dinheiro; e os traficantes.

Como a China passou pela Guerra do Ópio, o tráfico é uma questão muito grave para eles. O consumidor de drogas vai para tratamento, vai para uma colônia agrícola, vai carregar pedra, até limpar o organismo. Mas o traficante que for pego em flagrante, só tem um julgamento administrativo. E ocorre um fenômeno engraçado: ele é morto com um tiro na cabeça e a bala é paga pela família.

Isso é um preceito confuciano: a família é responsável pelos seus. Eles pensam o seguinte: o que esta família fez que não cuidou do seu filho que virou um traficante? É um tipo de humilhação perante o restante da sociedade. A pessoa vai ao banco pagar aquela bala que vai matar ou matou seu filho. Então o tráfico é considerado uma das piores coisas no país.

Quase todos os países asiáticos mantêm a pena de morte, inclusive os países capitalistas, os democráticos, como Cingapura. E, em geral, a pena de morte é legitimada pela população.

Agora, se fizermos uma comparação, proporcionalmente, a população carcerária americana é a maior do mundo e é nos Estados Unidos onde a aplicação da pena de morte é a maior do mundo. E ainda, por “coincidência”, a pena é aplicada por crimes cometidos por jovens e por negros pobres.

Há grave desrespeito aos direitos humanos?

Os chineses dizem que defendem os direitos humanos e o que o ocidente fala não é bem direito humano. São direitos coletivos, falam de direitos políticos e direitos individuais. O direito humano começa pelo direito de a pessoa ter segurança, trabalho, comida, uma série de coisas. Então, para eles, os direitos humanos têm que ser parte de um conjunto de direitos e não na base da visão de alguns países que já resolveram seus problemas de miséria e que consideram direitos humanos só uma camada superior, ou seja, o direito de a pessoa dizer certas coisas ou fazer certas coisas.

Até se pode dizer certas coisas na China, embora alguns tipos de oposição não sejam tolerados. Por exemplo, aquela seita religiosa, cujo líder mora em Nova Iorque e comanda de lá manifestações que, às vezes, chegam a propor a desobediência civil. Enquanto a seita estava em casa rezando, fazendo seus atos, não houve problema. Mas quando eles pregaram a desobediência civil, a polícia agiu com rigor, prendeu e mandou caminhões e caminhões para levar todo mundo para a prisão.

Mesmo que não seja comunista, a população vê o partido comunista como uma dinastia que está fazendo a China ser respeitada no mundo e, em segundo lugar, permitir que eles tenham alguma coisa. É preciso levar em conta que se trata de uma massa de camponeses que vivia com uma roupinha muito simples, com uma sandalinha feita em casa e um chapéu de palha. Era só isso. No máximo conseguia, às vezes, ter uma bicicleta. E esse sujeito hoje em dia está conseguindo guardar o dinheiro, comprar algumas coisas.

E o controle da natalidade?

A China adotou a política do filho único. Para eles é uma política necessária. Inclusive a taxa mundial está caindo porque a China segurou a expansão demográfica. Daqui a uns 15, 20 anos, a população da Índia terá passado a da China. Vocês imaginem o que isto vai representar! Olha o tamanho da Índia, os recursos da Índia. Eu fiquei em estado de choque quando visitei a Índia. Mesmo para quem está acostumado com miséria, é uma coisa chocante.

O problema é que para o camponês da China, que é tradicional, para ele a linhagem se transmite pelo homem. Então, se o primeiro filho for mulher, eles pensam: “A nossa família vai se extinguir”. Porque a mulher sai da casa e vai viver com a família do marido. Isso é uma coisa muito difícil porque existe abandono de crianças, por serem meninas.

Ter mais do que um filho é proibido. Às vezes há restrições em fazer ecografia, ou o médico dá um jeito de não revelar o sexo do bebê, porque as mulheres querem fazer aborto quando a gravidez é de menina, para poder ter um filho homem. Então há problemas, há muita gente. O espaço é pequeno, e alguns aspectos desse desenvolvimento são nocivos.