Agricultura, controle das sementes

A partir do momento em que você tem o controle da semente, todo ano você planta, colhe, faz o pão, por exemplo, e o resto do trigo você planta para o próximo ano, e isto lhe concede uma autonomia. Só que talvez a sua semente não produza tanto, ou não cresça tanto quanto aquela do vizinho, mas o controle é seu.

Além disso, quando uma comunidade planta por muito tempo um determinado grão, ele se adapta à sazonalidade da chuva, ao frio, ao calor, vai crescer de acordo com a incidência do vento etc., enfim, se adapta à região.

Agora, se você entra com uma semente transgênica, fornecida por uma empresa e pela qual você tem que pagar muito dinheiro, eles garantem que ela vai produzir bem, mas é uma mentira, porque a semente transgênica não tem uma mágica de se multiplicar: ela simplesmente é resistente ao veneno, mas é igual a qualquer outra. Então, na verdade, você vai pagar mais por essa semente, mas não vai produzir mais quantidade.

Outra questão importante de se dizer é que essas empresas estão querendo colocar dentro das suas sementes um gene que mata os filhotes, ou seja, aquilo que se chama de a semente exterminadora. Imagina, por exemplo, que um milho com esse gene cruze com a plantação de milho do vizinho, que é orgânico: vai matar toda a safra do vizinho. Veja, então, a responsabilidade que isso traz. Tal técnica ainda não está aprovada, mas está em tramitação uma lei para que isso aconteça. E isso representa um grande perigo para a agricultura familiar. Aliás, chego a pensar que é um dos maiores perigos que estamos enfrentando agora.

E esse movimento de conservação das sementes crioulas?

Tem uma discussão assim, que parece que isso não é moderno. Penso que deve ser levado em conta o que é inteligente e o que não é inteligente. Se você tem guardada no seu banco de germoplasma uma semente que resiste bem ao sol, à chuva, isso é uma segurança, uma riqueza que não tem tamanho.

Daqui a alguns anos, quando ninguém mais tiver, você pode multiplicar isso. Você pode salvar essa riqueza se não deixar que as empresas mandem naquilo que você vai produzir. Representa um sentimento profundo de liberdade, de autonomia que essa semente oferece, e até mesmo um significado muito profundo de vida.

Que recado você daria aos jovens para que tenham uma vida mais saudável?

Há um tempo atrás nos envolvemos com um movimento que está lutando contra uma hidrelétrica muito grande no Rio Xingu, na Amazônia, a Belo Monte, cuja construção afeta grande parte dos agricultores e afeta muito os indígenas da região. Um dia, os indígenas ocuparam o canteiro de obras dessa hidrelétrica para exigir seus direitos.

A primeira coisa que a empresa fez foi cortar a luz. Os índios ignoraram em princípio. Mas ficou complicado quando não mais conseguiram carregar a bateria do telefone celular, porque sem o celular não conseguiam acessar ao Facebook, e essa é uma forma de se conectarem com o mundo, assim como qualquer outro jovem procede. Ou seja, são índios que moram no meio da Floresta Amazônica, mas todos estão conectados, discutindo a vida deles. Isso não é coisa de índio? Mas por quê?

Voltando à questão da juventude, você não deixa de ser um jovem do campo se você procurar informação, se você faz um curso, se você estuda, se você faz política. O direito a protestar não é só coisa da juventude urbana. Aproveitar tudo o que esse processo da modernidade oferece em termos de vantagens é uma oportunidade para lutar por aquilo que você é. Por exemplo, os índios estão lá lutando pelos seus direitos, enfrentando uma empresa poderosa, mas estão filmando tudo o que acontece, registrando os abusos etc. E eles não deixam de ser índios por causa disso.

Talvez não seja o mais importante comprar um tênis bonito para dar uma volta na cidade, para se sentir em destaque, mas talvez o melhor jeito de ser um cara bacana é expulsar um grileiro que está ameaçando suas terras, ou assumir uma causa como essa de preservar o banco de sementes. Isso não vai deixar o jovem alienado ou alijado de outros processos da juventude mundial, bem pelo contrário, isso vai somar.