Como a China se tornou essa grande potência?

Podemos dizer que a China não é um país, mas uma civilização. Esse conceito de estado nacional, de país, é um conceito meio ocidental, é uma noção nossa. Mas eles não tinham essa concepção de mundo. A concepção de mundo deles era diferente, é um outro padrão de relacionamento entre estado e sociedade, frente às unidades políticas que compõem uma região. Ali não tem fronteiras de limites, como tem o ocidente. No oriente, e também na África, a política é mais uma administração das pessoas. No ocidente é uma administração das coisas, da propriedade. Por isso tem que ter uma linha que demarca o objeto, que pertence a um ou a outro.

A China foi a nação mais poderosa do mundo até o século 18. Era a mais rica, a que tinha o maior nível de vida. A população chinesa chegou a este nível devido à existência de alimentos em abundância. Era muito organizada através do controle do estado, que fez canais de irrigação, tentou drenar um pouco os rios para evitar as enchentes. E, além disso, estabeleceu um sistema de defesa, desde a famosa muralha até uma política de casamentos e de uma relação civilizacional e tributária com os vizinhos nômades. Dessa forma, esses vizinhos serviam de para-choque contra outros nômades que viessem a atacar a China.

Mas, no fim, a China foi atacada pelo mar. E foram os europeus que lá entraram e trouxeram um processo de semidestruição da civilização chinesa. Um dos maiores pontos deste conflito foi a Guerra do Ópio. Aliás, foram três as guerras do ópio. Os ingleses travaram este conflito para obrigar os chineses a liberar o consumo do ópio dentro do país. Então a China passou a se desmantelar.

E essa China, colocada “de joelhos”, começou a se desintegrar internamente. Isso aconteceu mais vezes na sua história. Quando uma dinastia deixava de cumprir a sua função, não tinha mais capacidade de governar, seguia-se um processo de desorganização completa da sociedade e de nova reconstrução. Depois de uma longa turbulência, surgia uma outra dinastia.

Essa longa turbulência tornou-se terrível durante a proclamação da República. Cada governador, cada chefe controlava uma província. O governo central não tinha poder de fato. A China viveu períodos difíceis. Foi aí, inclusive, que o Tibete ficou sem controle diante do governo central, apenas mantendo alguma relação simbólica, como todas as outras províncias também ficaram nessa situação. Até que em 1949, com a vitória do Partido Comunista, foi proclamada a República Popular da China. Veja bem que ela não se diz socialista; ela se diz popular.

O socialismo da China é diferente dos outros socialismos?

A China teve que se confrontar com a matriz do socialismo, que era a União Soviética. Essa matriz era apropriada para uma sociedade do tipo europeia, com a industrialização avançando. Mas a China, com aquela massa de camponeses que não podia ser convertida em operária do dia para a noite, foi, aos poucos, com muitos confrontos internos, bolando um caminho, uma estratégia própria de desenvolvimento.

Daí que o socialismo da China é um socialismo chinês. Ele tem uma característica muito própria. Muitas das ações do Partido Comunista são ações calcadas numa tradição chinesa. Então, num primeiro momento, foi necessário reconstruir, reorganizar a China e garantir a sua verdadeira independência. Isto aconteceu nos anos de 1950, 60 e parte dos anos 70. Depois, a China passou a modificar um pouco as suas estruturas.

Eles partiram da seguinte visão: “Olha, estamos muito atrasados, nós temos que nos desenvolver. Então vamos fazer o seguinte, vamos criar a chamada Economia Socialista de Mercado”. E o que é isso? É descentralizar o planejamento e centralizar o mercado.

O planejamento era sempre baseado na ideia de que a China teria que enfrentar as guerras. Então não tinha uma lógica econômica. Tinha mais uma lógica de defesa. Era uma ideia de que cada província fosse autossuficiente e, inclusive, naquela época do grande salto à frente, que cada aldeia pudesse fundir o seu minério de ferro etc.

Não vamos esquecer que eles travaram uma guerra com os Estados Unidos na Coreia; que a esquadra americana estava mantendo uma facção, controlando uma parte do seu território em Taiwan, e que havia na Índia e na Birmânia forças hostis que também atacavam a China. E a União Soviética também não era totalmente confiável.

A ordem era a seguinte: “Se nós tivermos uma guerra, cada aldeia será um bastião de resistência”. Só que esse perigo passou. E hoje a China tem bomba atômica; entrou no Conselho da ONU nos anos 1970 etc. Por isso passou de uma postura de defesa para uma postura de propostas próprias.

Mudou também a forma de produção?

Hoje a China articula uma troca entre cidade e campo. A cidade produz algum bem de consumo para o camponês em troca de produtos excedentes do campo. Em geral, o camponês fabricava quase tudo de que precisava. Um ou outro tinha uma bicicleta, ou coisa assim. Agora descoletiviza um pouco a agricultura. Mas atenção! A ideia de que há um capitalismo agrário é um pouco errada. Aquela norma básica de que toda a terra sempre pertence, em última instância, ao estado continua valendo. A terra é dada em usufruto. Pode ser vendida, até renegociada, mas o estado tem o direito de retomar.

Ainda há fazendas coletivas, mas há também muitas cooperativas e se criou uma legislação que permite ao camponês vender no mercado uma parte de sua colheita. Uma parte vende para o estado, tipo Ceasa (Centrais de Abastecimento), com valor básico, para poder alimentar a população da cidade. E o excedente ele pode vender no mercado.

O camponês também pode fazer um produto mais sofisticado, tipo um presunto, e vender no mercado. Com isso ele começa a ter uma renda. Com essa renda, ele compra da cidade o que a cidade pode vender para ele: um rádio portátil, uma bicicleta etc. Daqui a pouco começa a entrar um fogão a gás, para não cortar mais árvores. Porque, no campo, todo mundo cozinhava no chão, só com um tripezinho e fogo com lenha embaixo. Tem que lembrar aí de que nós estamos falando de quase um quarto da humanidade.